segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Egito


Matança de porcos deixa lixo acumulado no Egito

EFEEFE
Heba Helmy. Cairo, 18 out (EFE).- Seis meses depois de o Egito sacrificar seus porcos como forma de combate à gripe A, a medida não só deixou milhares de criadores à beira da miséria como gerou um outro problema: a acumulação de lixo.
- O porco era como uma palmeira que dava frutos. Cada vez que tínhamos fome, comíamos dela. Agora, do que viveremos?, disse Alnuqrashi Sedki, catador de lixo que criava porcos.
Como Sedki, dezenas de milhares de catadores - chamados de "zabalin" no Egito - que vivem na parte leste do Cairo, nos arredores da montanha de Muqatam, se sentem inseguros após perderem os porcos dos quais dependiam para viver.
Em abril, as autoridades egípcias ordenaram o sacrifício de 350 mil porcos para evitar a propagação da gripe A, apesar de não haver registros de casos da doença no Egito até então. Embora esta gripe tenha tido origem nos porcos, os animais não são mais o centro do problema.
Entre montes de lixo e rodeado por moscas, Sedki, que tem seis filhos, disse à Agência Efe que sua renda caiu 80%. O catador, de 40 anos, diz que vivia bem quando cobrava 1.500 libras egípcias (quase US$ 300) ao mês por recolher lixo. Além disso, vendia lixo para usinas de reciclagem e a carne dos porcos que tinha para restaurantes. O recolhimento de quase 14 mil toneladas de lixo por dia do Cairo sempre foi o negócio dos "zabalin", quase todos da minoria cristã, que passavam de casa em casa para levar o lixo em um carrinho até seu bairro. Ali, separavam o lixo em seus próprios lares para alimentar os porcos com resíduos orgânicos e para vender os produtos de plástico e de papelão às fábricas de reciclagem.
Nos últimos anos, o sistema de coleta de lixo mudou em alguns lugares do Cairo, já que várias companhias estrangeiras se encarregaram de recolher os resíduos substituindo os carrinhos puxados por burros por caminhões.
Em outras zonas do Grande Cairo, no entanto, se mantém o sistema tradicional, o que gerou uma inusitada acumulação de lixo nas já sujas ruas da capital. "Agora não temos porcos para vender e não cobramos das casas porque não recolhemos mais seu lixo", conta Sedki.
Sentada em cima de uma montanha de papéis sujos, a irmã de Sedki, que não quis se identificar, disse à Efe que as autoridades sacrificaram os mil porcos que criava no pátio de sua casa.
- Quando vieram aqui para matar nossos animais, nos pagaram 50 libras egípcias (US$ 9) por cabeça, mas agora que renda teremos?, perguntou a mulher, que divide o negócio com Sedki e com o resto de sua família. Os únicos "zabalin" que não sofreram com a perda dos porcos são os que trabalham nas usinas de reciclagem. "Para nós, o sacrifício dos porcos foi bom. Há menos mau cheiro em Muqatam e o bairro está mais limpo", disse à Efe Gerguis Gamal, enquanto fazia cabides de plástico reciclado. Alguns lixeiros ainda sobrevivem da coleta dos resíduos recicláveis, enquanto outros tiveram que mudar de profissão.
Como já não há porcos, os lixeiros se negam a recolher os restos orgânicos que antes serviam como comida para estes animais. Também não passam de casa por casa para levar seus sacos de lixo e escolhem os resíduos de que precisam e deixam todo o resto nas avenidas do Cairo.
Como consequência, o lixo se acumulou nas ruas e o mau cheiro que antes dominava o bairro dos "zabalin" se transferiu para diversas esquinas da capital do Egito. Para piorar, as companhias de lixo estrangeiras, com suas tecnologias avançadas, não puderam competir com o lixeiro tradicional nem cumprir com as condições impossíveis dos contratos que assinaram com o Governo egípcio. Além disso, houve greves que agravaram ainda mais o problema.
- O dinheiro que ganhávamos com a criação dos porcos nunca voltará. Então, o que pedimos é voltar a recolher o lixo das casas, disse Sedki. EFE hh/bba

Solar cities


Catadores usam lixo para conseguir luz e água quente

Moradores da comunidade Zabbaleen (catadores de lixo, em árabe), no Cairo (Egito), vivem com menos de um dólar por dia, não têm emprego nem comida e às vezes sequer água ou eletricidade e, no entanto, construíram em suas casas uma tecnologia sustentável de primeira qualidade com a única coisa que têm de sobra: lixo.
A ideia foi levada até a comunidade pelo cientista americano Thomas Culhane, um apaixonado pela criação de cidades sustentáveis que se mudou para a favela do Cairo há quatro anos para iniciar este projeto.
A sua ONG, Solar Cities, trabalha para diminuir as despesas com energia e resíduos nas áreas dos lares que mais os produzem – banheiros e cozinhas.
Ele utiliza materiais que iriam parar no lixo na construção de aquecedores solares, garantindo que a população tenha água limpa e quente sem correr os riscos do aquecimento da água por querosene.
As 17 placas solares construídas com canos de ferro e chapas de alumínio e latas recicladas já foram instaladas no bairro. O processo de aquecimento é muito simples, a água corre pelos canos fica armazenada em um tanque que é conectado a mangueiras e válvulas, que também vieram do lixo.
Em um dia de “bom sol”, coisa que não falta no Cairo ao longo do ano, uma família pode ter 200 litros de água quente sem gastar um só centavo.
O projeto na comunidade de Zabbaleen, onde vivem cerca de 50 mil pessoas entre montanhas de lixo, não termina por aí, já que em alguns lares também foram construídos sistemas que permitem obter gás a partir da decomposição dos resíduos orgânicos.
Com seu sistema de aquecedores solares, a família tem água quente todos os dias. O biodigestor proporciona uma hora de gás ou 45 minutos de eletricidade.
Este é um exemplo de como é possível melhorar a qualidade de vida das pessoas que vem em regiões com infra-estrutura básica precária em nosso país. Com certeza temos profissionais capazes e os recursos necessários. Quem aceita nossa provocação?

Zabbalen

15/10/2010 - 11h04

Catadores do Cairo usam lixo para conseguir luz e água quente

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DA EFE
Eles vivem com menos de um dólar por dia, não têm emprego nem comida e às vezes sequer água ou eletricidade e, no entanto, construíram em seus tetos tecnologia sustentável de primeira qualidade com a única coisa que têm de sobra: o lixo.
Alguns moradores da comunidade de Zabbaleen (catadores de lixo, em árabe), no Cairo (Egito), construíram aquecedores solares com materiais recicláveis que proporcionam a eles água limpa e quente.
Assim, para os habitantes deste bairro, tornou-se coisa do passado aquecer água na estufa ou com querosene, que anualmente causam a morte de 30 pessoas por acidentes.
Amel Pain/Efe
Moradores da comunidade de Zabbaleen construíram aquecedores solares com materiais recicláveis
Moradores da comunidade de Zabbaleen construíram aquecedores solares com materiais recicláveis
O autor intelectual --e principal executor-- dessa ideia é o cientista americano Thomas Culhane, apaixonado pela criação de cidades sustentáveis, que se mudou para a favela do Cairo há quatro anos para iniciar o projeto.
"Preparamos eco-comunidades que possam produzir soluções de água, energia, resíduos sólidos e que as pessoas sintam isso em seus ossos e mãos, que o vivam todos os dias", enfatiza Culhane à agência de notícias Efe.
A missão de sua ONG, Solar Cities, se limita a diminuir as despesas em energia e resíduos nas áreas dos lares que mais os produzem-- banheiros e cozinhas.
A tecnologia é tão simples que até "uma criança de dois anos pode fazê-lo. Com a ajuda do pai, claro", ressalta Culhane, enquanto olha a foto de seu filho com uma chave de fenda na mão.
As 17 placas solares já instaladas no bairro, construídas com canos de ferro e chapas de alumínio de latas recicladas, aquecem a água que percorre os canos e a enviam a um tanque conectado com mangueiras e válvulas, também extraídas do lixo.
Um efeito de sifão faz com que a água quente se acumule no alto do tanque e que a água fria saia por baixo para entrar novamente no coletor solar.
"Não é uma tecnologia que veio de mim, mas saiu da própria comunidade. Carpinteiros, encanadores, eletricistas, soldadores e artesãos. Todos cooperaram com ideias", explica o físico.
O benefício é que, com um só dia de "bom sol" --coisa que não falta no Cairo ao longo do ano--, uma família pode ter 200 litros de água quente sem gastar um só centavo.
ENTRE MONTANHAS DE LIXO
O projeto na comunidade de Zabbaleen, onde vivem cerca de 50 mil pessoas entre montanhas de lixo, não termina por aí, já que em alguns lares também foram construídos sistemas que permitem obter gás a partir da decomposição dos resíduos orgânicos.
"O maior problema das cidades é o lixo orgânico", ressalta Culhane. No entanto, segundo ele, com esses biodigestores, os resíduos desaparecem, "evitando odores, doenças e ratos".
"É ótimo que as pessoas falem da mudança climática e de controlar seus efeitos, mas com isso nós estamos salvando vidas", argumenta Culhane, ao dar o exemplo de seu principal colaborador, Hanna Fathy, cuja sobrinha de um ano de idade foi devorada pelos ratos.
A casa de Fathy, um egípcio de 27, localizada na comunidade Zabbaleen, na zona de Manshiyat Nasser, pode ser comparada aos lares sustentáveis dos países mais desenvolvidos.
Com seu sistema de aquecedores solares, a família tem água quente todos os dias. O biodigestor proporciona uma hora de gás ou 45 minutos de eletricidade. Além disso, a família se dá o luxo de ouvir música na rádio.
"Gosto de mostrar às pessoas todos os benefícios que o sol pode nos dar com uma tecnologia barata que eles mesmos podem construir", afirma Fathy, que vive dos chamados "tours solares", oferecido pela Solar Cities em seu site.
Para Culhane, o Egito tem "os profissionais, os recursos e a criatividade" para resolver suas principais necessidades. "Só é preciso que comecemos a mudar de mentalidade."
E ele promove essa mudança de uma maneira mais que original. Com seu violão solar e suas próprias composições, Culhane faz os Zabbaleen cantarem músicas pegajosas: "É hora de mudar o biogás!"

Fenix Agape

24/12/2010 - 06:57 

BNDES recebe selo Amigo dos Catadores

Entrega foi reconhecimento ao apoio do Banco a projetos de coleta seletiva de materiais recicláveis, de 2007 a 2010, foram liberados R$ 21 milhões para 83 cooperativas em dez Estados.
O BNDES recebeu do Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis o selo Amigo dos Catadores. O selo foi entregue no dia 23 de dezembro (quinta-feira), ao presidente do Banco, Luciano Coutinho, durante o Natal do povo de rua e catadores com o presidente Lula e a presidente eleita Dilma Rousseff, na Expocatadores 2010, realizada em São Paulo.
De acordo com a nota do banco, a entrega do selo foi um reconhecimento ao apoio que o BNDES vem dando a projetos de coleta seletiva de lixo com inclusão social de catadores de materiais recicláveis. De 2007 a 2010, a carteira contratada do Banco totaliza R$ 57 milhões, tendo sido atendidas 83 cooperativas de catadores, de 51 municípios, em dez Estados, com liberações na ordem de R$ 21 milhões.
A previsão é que o BNDES invista mais R$ 92 milhões em projetos nessa área. Só nas 12 cidades que sediarão jogos da Copa de 2014, o Banco deverá alocar R$ 60 milhões.
A atuação do BNDES na inclusão sócio produtiva de catadores de materiais recicláveis permitiu ampliar a geração de trabalho e renda, além de dignificar essa categoria, normalmente menos assistida por políticas públicas.
O suporte que o BNDES dá às cooperativas de catadores está inserido no âmbito do Programa de Resíduos Sólidos do Plano Plurianual do Governo Federal, que tornou os catadores beneficiários da política pública do Estado brasileiro.
Logística Solidária Cataforte – No encerramento da Expocatadores 2010, os presidentes do BNDES e da Fundação Banco do Brasil, Jorge Streit, assinaram contrato que prevê parceria visando apoio aos catadores por vários meios.
Como parte desse convênio, foi entregue um caminhão de coleta de resíduos sólidos, no valor de R$ 140 mil, à Rede Cata-Sampa, de São Paulo. Esse foi o primeiro de 140 caminhões a serem entregues às cooperativas no âmbito do programa Logística Solidária Cataforte.
Veículos elétricos – A Fundação Itaipu enviou para análise do BNDES o projeto Veículos Elétricos para Catadores (VECs), que está inserido no âmbito do acordo de cooperação técnica entre o Banco e o Ministério do Desenvolvimento Social, de março de 2008. O BNDES irá aportar recursos (até 50%) em iniciativa compartilhada com o Ministério. Os dois repassarão esses recursos para a Fundação Itaipu, que fará a administração e execução do projeto.
O projeto piloto prevê a entrega de até 1.000 veículos elétricos, que serão distribuídos para cooperativas do Paraná. O veículo foi desenvolvido e patenteado pela Fundação Itaipu, que doou a patente para o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis. Ele vai melhorar as condições de trabalho dos catadores, pois substituirá carroças de tração humana e animal.
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Eu estava com eles

garantiu dignidade no governo Lula

Publicado em 24/12/2010, 12:15
Última atualização às 12:39
 
Para catadores, trabalho de coleta seletiva garantiu dignidade no governo Lula
Lula assiste à apresentações culturais de catadores; presidente emocionou-se repetidas vezes durante as falas de lideranças do movimento (Foto: Ricardo Stuckert/PR)
São Paulo - Cerca de duas mil pessoas esperaram, por horas, a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na quinta-feira (23), último dia da Expocatadores na capital paulista. A maior parte deles tinha a mesma expectativa. Baianos, mineiros, paranaenses e catadores de outros estados dividiam o espaço com trabalhadores de outras nacionalidade, como peruanos e equatorianos. O evento teve caráter internacional.
Adalvina Ribeiro, de 62 anos, é catadora de materiais recicláveis em Maringá (PR). Há três décadas ela trabalha dessa forma e mostrava com orgullho a foto que estampava a capa de um jornal local, em que ela abraçava o presidente Lula em uma visita à cidade, há cinco anos.
Ela revela que, hoje, sua atividade pode ser vista como uma profissão de verdade. "Eu sou catadora e vou continuar com muito orgulho", explica. Dona Adalvina sabe que seu cotidiano pode melhorar, e parte dessas mudanças não envolve decisões políticas.
"O catador é importante, só que precisamos que as pessoas se conscientizem. Todo mundo tem de nos ajudar a separar o lixo", avisa. "Mas eu gosto de lixo limpinho", pede a paranaense, com um sorriso no rosto.

Legislação

O mestre de cerimônia do evento, paramentado de modo peculiar, incentivava o coro: "Não, não, não à incineração". A queima de resíduos é considerada uma das maiores vilãs pelos catadores, que consideram que a solução pode representar vantagens para prefeituras e problemas para eles. Pressionadas pelo poder econômico, as administrações poderiam colocar em risco a profissão relacionada à separação de materiais recicláveis.
Entusiasmado com o protesto contra os incineradores, Ubiratan Santa Bárbara, líder da Cooperativa de Agentes Ecológicos de Canabrava (Caec), de Salvador (BA), analisa que há alternativas. Para ele, a Lei de Resíduos Sólidos assinada por Lula facilitará o trabalho diário da categoria.
A legislação recém modificada responsabiliza empresas pela chamada "logística reversa",  que é o recolhimento de produtos descartáveis pelos fabricantes. A medida favorece a integração de municípios na gestão dos resíduos e responsabiliza mais setores da sociedade pelo lixo gerado.
Ubiratan pede às prefeituras que vejam os catadores com "bons olhos" e passem a apoiar as cooperativas e a coleta seletiva. "Eles têm de ver que não será um favor para nós, catadores, mas sim para a sociedade e para o meio ambiente", ensina. E avisa: "É com a iniciativa de vocês (prefeitos) que isso chegará aos cidadãos catadores".

Referência

A experiência brasileira despertou o interesse de outros países. A catadora Luana Guanaluiza, uma das líderes da associação de catadores da cidade de Quito, no Equador, conta que veio até o Brasil para saber como o governobrasileiro conseguiu fazer com que o trabalho dos catadores pudesse ser reconhecido.
"No Equador não somos reconhecidos por ninguém, nem pelo governo", lamenta. "Lula é o primeiro presidente do mundo que oferece pelo menos um dia de sua agenda para os catadores", reconhece.
De fala humilde, mas convicta, Matilde Ramos, da liderança do Movimento Nacional Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) em nome de todos os catadores fez um balanço do governo Lula, e , por muitas vezes, o deixou acanhado.
Sempre com o olhar direcionado a Lula, nem Matilde nem o presidente escondiam a emoção. Ao agradecer a presença e o compromisso de ter aderido à luta dos catadores, Matilde olhando para o presidente e lhe indagou firmemente: "Graças a você conseguimos sair de uma vida desumana. O senhor tem dimensão do que fez pela gente?. Ele reage com com um abraço.

sábado, 18 de dezembro de 2010

TRANSFORMAÇÕES

FIGURA ESTRANHA!!!

O fotógrafo mais famoso da região, o Pereira Vídeos e Fotos nos cedeu a imagem desse animal estranho que tem o tamanho de um cachorro e o focinho de um gato e as patas com formato estranho.


Segundo Pereira essa foto foi cedida por uma cliente que veio revelar umas fotos, o mesmo é da cidade de Caicó e é criado como animal de estimação.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Brasil Arab

Elas vão à luta também na Arábia Saudita

Mulheres que participaram de missão empresarial brasileira ao Oriente Médio contam como foi negociar no país mais conservador do mundo árabe. Os resultados foram surpreendentes.
Alexandre Rocha alexandre.rocha@anba.com.br
São Paulo – Havia certa preocupação sobre a recepção que seria dada, na Arábia Saudita, às mulheres que integraram a missão empresarial do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior ao Oriente Médio (MDIC), realizada de 28 de novembro a 06 de dezembro. Afinal, o país é o mais conservador da região. Lá, a interação entre pessoas de sexos opostos, que não tenham relação de parentesco, é desencorajada, e as mulheres devem se cobrir com abaya, robe preto que vai sobre a roupa, e lenço na cabeça.
Alexandre Rocha/ANBA Alexandre Rocha/ANBA
Marlucia: mudança de um ano para o outro


A delegação brasileira desembarcou em Riad, a capital saudita, em 03 de dezembro, uma sexta-feira, que para os muçulmanos é dia de descanso e oração comunitária, equivalente ao domingo dos cristãos. Para o dia seguinte, estava marcada rodada de negócios com empresários locais, no hotel Al Faisaliah, que fica em um importante complexo comercial na área central da cidade.

Vestidas como manda o figurino local, as brasileiras foram à luta como fizeram nas demais paradas da missão: Damasco, na Síria, Cidade do Kuwait, Doha, no Catar, e Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. A ansiedade, no entanto, logo passou, quando perceberam que o tratamento dispensado não era diferente do que receberam nos outros países, e que os empresários que compareceram queriam negócios, independentemente do sexo do negociador.

Alexandre Rocha/ANBA Alexandre Rocha/ANBA
Al Faisaliah, local do evento
“Eu me surpreendi muito mais porque no ano passado foi muito difícil, fui praticamente barrada na porta da feira”, disse a carioca Marlucia Martire, da trading ALM Brazil, única mulher do grupo que esteve na Arábia Saudita anteriormente. Em 2009, ela foi a Riad com a intenção de participar da Saudi Agro-Food, mostra alimentos e produtos agropecuários, mas foi impedida de entrar no recinto do evento, onde só havia homens.

Marlucia contou que todos os empresários com quem conversou na rodada já entraram em contato por e-mail ou telefone desde que ela voltou ao Brasil. Um deles, por exemplo, está interessado em comprar água de coco e coco ralado da Ducoco, marca que sua empresa representa.

Na mesma linha, Simaia Zonta, da TTBG Comércio Exterior, de Santa Catarina, que exporta chás, disse que a maior diferença que sentiu em relação aos outros países, que têm costumes mais liberais, foi a necessidade de se cobrir. “Com todo o respeito à cultura local, eu não via a hora de tirar [a abaya e o lenço]”, afirmou. “Mas o tratamento [pessoal] foi igual, não me senti excluída”, ressaltou.

A roupa

Denizy Alves, da Govidros, de Goiás, participava pela primeira vez de uma missão internacional. Ela disse que estava com receio de como seriam os encontros na Arábia Saudita, mas tudo correu de forma tranquila. Assim como Simaia, Denizy disse que o principal incômodo foi com a vestimenta. “Incomoda um pouco, a gente não dá conta de colocar [o lenço] como elas (as mulheres sauditas), então ele cai. Não estava quente, então não sofri tanto”, declarou. “Eu gosto de viver o momento, foi diferente, então eu gostei, foi uma boa experiência”, destacou. Marlucia, por sua vez, pediu ajuda a mulheres locais para colocar o lenço corretamente.

Arquivo pessoal Arquivo pessoal
Fernanda no aeroporto de Riad
No caso de Fernanda Tavares, da Ruette Spices, que comercializa pimenta do reino, o lenço teimou em não ficar na cabeça. “Sentou um [empresário] atrás do outro [na mesa] e eu não tive tempo de arrumar”, afirmou. “Eu fiquei com medo de alguém não parar [para conversar] por eu ser mulher e estar sem véu, mas não tive problema nenhum. Ninguém deixou de falar comigo”, ressaltou.

Sobre o uso da abaya e do lenço, Cristina Guerreiro, também da Ruette Spices, de Campinas, contou: “Inicialmente eu me senti fora do meu ‘habitat natural’, como se estivesse indo a um baile a fantasia. Mas depois eu percebi que diferente seria se eu estivesse vestida como no Brasil. Mesmo com o lenço caindo, eu fiz questão de usar por respeito à cultura local.”

Empresárias locais

Mais do que mulheres oferecendo os produtos brasileiros, havia na rodada empresárias locais em busca de negócios. Cristina não só atendeu uma delas, como almoçou com a potencial cliente. “Era um importadora de produtos diversos, uma pessoa que conhece o mercado e seu telefone não parou de tocar durante o almoço”, disse. “Ela sabia o que estava procurando, não caiu de paraquedas”, afirmou. “Ela era altamente negociadora”, acrescentou Simaia, que também conversou com a saudita. Aliás, a empresária local fez contatos com boa parte das empresas brasileiras.

A empresária saudita usava, além da abaya e do lenço, um “niqab”, véu que cobre o rosto deixando apenas os olhos de fora. Na hora do almoço, que reuniu os empresários dos dois países, a saudita disse que não podia mostras sua face em público, então convidou Cristina para almoçar em uma sala reservada.
Arquivo pessoal Arquivo pessoal
Cristina com empresário saudita casado com brasileira


Ela contou à brasileira que é de uma família bastante tradicionalista, mas o pai, comerciante e poliglota, acabou influenciando o gosto da filha pelos negócios. Casada e mãe de três filhos, a empresária saudita disse que tem que conciliar o trabalho com os afazeres domésticos. “Ela falou bastante sobre negócios e sobre a cultura [local], e eu falei muito sobre o Brasil”, disse Cristina.

Outras mulheres apareceram na rodada, como Iara Silva, carioca que se converteu ao Islã e foi morar na Arábia Saudita com o marido e o filho. Ela tem uma empresa de representação comercial e é assídua frequentadora de eventos com empresários brasileiros na Arábia Saudita. Outra brasileira foi ao encontro junto com o marido, um saudita que fala português.

Análises

Para Cristina, o tratamento profissional que as brasileiras receberam em Riad é fruto do próprio meio em que elas trabalham. “Pessoas que trabalham com comércio exterior estão acostumadas a lidar com outras culturas. Eu não tenho nenhum comentário que não seja positivo”, garantiu, mas acrescentou: “Somente pela delegação [do MDIC] eu tive a oportunidade de estar no país para fazer meu trabalho.” Ela destacou que não se sentiu tão à vontade quando foi passear em um shopping center ao lado do hotel.

Marlucia ouviu de empresários sauditas que o país começa a oferecer certo grau de abertura, permitindo acesso a alguns lugares de mulheres estrangeiras em viagens de trabalho, e que mulheres nativas, acompanhadas dos maridos, realizam também atividades de negócios.

“Desde que sejam respeitados os limites culturais, a mulher tem entrada em qualquer lugar”, disse Marlucia. “Em 2009 [na Saudi Agro-Food], eu tentei ir além e me choquei”, destacou ela, acrescentando que, para quem viaja a negócios, o ideal é não ultrapassar os limites impostos pela cultura do país visitado.